sábado, 23 de junho de 2012

Mortificação do Espírito




Mortificação do Espírito


"É o espírito que governo o corpo; quando ele se deixa dirigir pela mão de Deus, a graça presta-lhes socorro e ele tem domínio suficiente pra reprimir as suas revoltas" (Santo Agostinho). Importa pois sobremaneira que o espírito se não perca nos seus caminhos; ele formaria com o corpo aquele par de cegos que vai cair no barranco (S. Lucas, VI, 30).




Para que o espírito seja na castidade um fiel guardião, deve - também ele - suportar as suas mortificações, que consistem:
1º- Em extinguir o orgulho;
2º- reprimir a curiosidade.
I - Extinguir o orgulho
Os Santos Padres fazem observar que os animais mantiveram-se submissos ao homem e os seus sentidos dóceis ao espírito, durante todo o tempo em que ele próprio foi humilde e obediente servo de Deus. Não tendo "no corpo nenhuma fraqueza, nenhuma espécie de concupiscência no espírito, o homem não era acessível ao mal senão pela complacência consigo mesmo, pelo orgulho" (Bossuet). Foi por aí que o demônio tentou os nossos primeiros pais. Eles prestaram-lhe atenção e "ele fez nascer no seu coração um secreto prazer de se deleitarem em si mesmos, de se comprazerem na sua própria perfeição" (Bossuet). Logo "o homem se precipitou do alto, e, extraviado de Deus, cai primeiramente sobre si mesmo" (Santo Agostinho).
"Então, perdendo a sua força, ele cai, de necessidade, ainda mais baixo: os seus desejos dispersaram-se por entre os objetos sensíveis e inferiores" (Bossuet). Tais como aquelas belas toalhas de água que, tendo partido tão puras do céu, se quebram primeiro sobre os cimos dos montes, depois pulvarizam-se ali e deslizam até aos vales e ás profundezas da terra. O que chegou para o gênero humano; infectado em Adão, como um rio na sua nascente, reproduz-se em cada um dos seus infelizes descendentes. "Os que conhecem Deus e não O glorificam e se perdem - pelo orgulho - nos seus próprios pensamentos, entrega-os Deus aos desejos do seu coração e as más paixões" (Rom., I, 21, 24, 26).
"Para muitos, o orgulho é uma raiz venenosa que tem como fruto o pecado dos sentidos" (São Gregório). "O orgulho é incompatível com a castidade" (São Vicente de Paulo).
A medicina das almas, diz um grande papa, segue as mesmas leis que as dos corpos: assim como se reaquece um sangue arrefecido para curar certas doenças, assim se substituirá aqui ao orgulho cuja punição é o pecado humilhante, a humildade de que a castidade é a gloriosa recompensa. Diz-se que ela é "a virgindade do espírito" (Lacordaire). "Se portanto queres ser casto, sê humilde; se queres ser muito casto, sê muito humilde" (Pe. Saint Jure); "não se pode conquistar a graça da castidade, sem se terem lançado no coração os fundamentos da humildade" (Cassiano).
O castigo do orgulho consiste em "Deus subtrair-lhe os seus dons e em só lhe deixar o fundo do ser; nele nada ficou senão o que ele pode ter sem Deus, isto é, o pecado e a desordem" (Bossuet). O humilde, pelo contrário, desconfiando de si próprio, procura em Deus o seu apoio e a sua luz: quanto mais foge de si mesmo, mais encontra Deus; mais também se purifica nEle. Assim, os lírios deixam o solo, lançam-se por sobre a sua folhagem e tomam, mais perto do céu, a sua deslumbrante brancura. Nessa humildade, reconhece que se recebe de Deus a graça da castidade; desconfia-se de si próprio, seja qual for o grau de virtude que se tenha atingido; finalmente, permanece-se indulgente e bom para todos os pobres pecadores. Uma religiosa lembra-se com fruto "de que uma mulher humilde vale mais do que uma virgem orgulhosa" (Santo Agostinho).
II - Combater a curiosidade
São João previne-nos, no mesmo versículo, contra "a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida" (I, S. João, II, 16). Aqui temos reunidas as três raízes do mal. "Que tem pretendido o demônio senão tornar-me soberbo como ele, esperto e curioso como ele, e por último sensual?"; o homem seduzido "tornou-se soberbo, tornou-se curioso, tornou-se sensual" (Bossuet). O orgulho é uma estrada larga que conduz aos pecados dos sentidos; a curiosidade leva ao mesmo fim por diversos atalhos. A tentação começa pelo orgulho, continua pela curiosidade e "termina como que no lugar mais baixo, pela corrupção da carne" (Bossuet).
Primeiramente é o desejo de saber. "Vós sereis como deuses, disse Satanás, conhecendo o bem e o mal". Excessivamente escutadas, "estas palavras levaram uma curiosidade infinita ao fundo dos nossos corações" (Bossuet). Este vasto apetite de saber é um sinal da excelência do nosso espírito; oculta porém escolhos perigosos. O que se passa em volta de nós e em nós mesmos faz-nos sonhar, procurar, interrogar. Em matéria de castidade, há tantos mistérios a rodear-nos, tantos fenômenos a excitar as nossas investigações; se alguém se não precaver contra eles, perde, dentro em pouco, aquela feliz ignorância que é a melhor guardiã da inocência.
Certas religiosas são excessivamente ávidas de novidades mundanas, interrogam, para além dos limites, as visitas, as externas dos pensionatos, vão longe demais nas perguntas que fazem às suas antigas almas ou no que lhes permitem dizer, inquirem sobre certas minudências demasiado profanas, interessam-se demasiado livremente por uma multidão de coisas que dissipam o espírito e povoam a imaginação de quimeras malsãs.
Depois vem o desejo de ver. Ainda aqui "em que se abrem os olhos para os saciar com a vista das belezas mortais, ou mesmo deleitar-se em vê-las, ou em ser visto, é-se dominado pela concupiscência da carne" (Bossuet). "A alma que está toda ocupada na contemplação de Deus e das coisas eternas, não tem dificuldade em fechar os olhos sobre a criatura" (Santo Hilário); pelo contrário, "toda a alma curiosa é vã e superficial" (Bossuet) e como sente a sua indigência interior, mendiga aos objetos exteriores algo para preencher o vazio do seu espírito. A religiosa prudente "mergulha tão intimamente no seio de Deus, que os olhos mortais não a podem seguir até ali; por sua vez, ela não pode desviar-se de um tão digno, de um tão doce objeto" (Bossuet).
Por último, a curiosidade leva a um declive mais perigoso pelo desejo de experimentar, de sentir. Eva olhou para o fruto, achou-o belo, apetecível: foi então que o comeu (Gen., III, 6). Seria também muito difícil, a uma imprudente, discernir se não experimentou já uma deleitação culpável nesse último gênero de curiosidade.
A privação, a austeridade combatem "essa moleza e essa delicadeza espalhada por todo o corpo" (Bossuet); "e, para se conservarem castas, as consagradas renunciam corajosamente a todo o pensamento, a todo o desejo que as reconduz à terra; elas renegam de tudo o que lhes lisonjeia o corpo e o espírito, procuram tudo o que é princípio de morte para a vida carnal". (São Gregório Magno)
Afetos. - "Colocai a minha vida, ó Jesus, sob a guarda do Vosso Santo Espírito. Absolvei o meu espírito no Vosso, tão profundamente que eu esteja submersa em Vós. Que nesta união conVosco eu escape a mim mesma e que saia de mim para viver em Vós e que eu permaneça assim sob a Vossa guarda durante a eternidade". (Santa Gertrudes).
Exame. - Ponho eu a minha castidade sob a guarda de uma humildade profunda, constante, prática? Não sou levada a elevar-me acima das minhas irmãs de inferior condição, de ocupação inferior, de virtude pouco aparente, acima das pessoas piedosas que vivem mo mundo? - Fecho cuidadosamente os meus olhos à vaidade, os meus ouvidos às novidades, o meu coração aos desejos vãos e perturbadores? - Não sou questionadora? indiscreta?
Resolução.
Ramalhete espiritual. - "Ó Senhor, ponde os meus olhares em Vós; que eu não veja as vaidades". (Bossuet)

(Ensaio sobre a castidade, pelo Pe. F. Maucourant, edições Paulistas, ano de 1959, com imprimatur)

Créditos ao excelente blog: catolicosribeirao.blogspot.com.br