segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Luto-Nota de Falecimento - Gustavo


por Claudete Pletsch

Queridos amigos voluntários,

É com grande pesar que comunicamos o falecimento de GUSTAVO AUGUSTO DA SILVA COSTA, o nosso anjinho de apenas 7 anos que vínhamos ajudando, ocorrido na última sexta, dia 10, às 14:00hs.

O corpo foi velado na casa da tia, no Parque Vitória, e o enterro foi no sábado, às 15:00hs, no Cemitério da Maioba.

O caixão e o translado do corpo foi pago pela Prefeitura de São José de Ribamar. No entanto, na sexta à noite ainda não havíamos conseguido local para o sepultamento. Somente no sábado pela manhã que conseguimos junto ao cemitério da Maioba um local para enterrar essa criança. Foi gráças à contribuição de diversos amigos que conseguimos pagar o sepultamento e providenciamos também o túmulo em alvenaria e a lápide com as inscrições que identificam o local.

Gostaríamos de deixar aqui o nosso sincero agradecimento, em nome da família, a todos que ajudaram. Que Deus abençôe a todos e, principalmente, a essa família que vive esse momento tão difícil.


Sobre o caso:

Gustavo, portador de paralisia cerebral, estava internado desde o dia 23/10 no Socorrão II por conta de crises convulsivas que os médicos não estavam conseguindo controlar. Sem leito, passou cerca de uma semana deitado sobre um banco de concreto, no corredor, onde o único conforto que possuía era o colo da mãe. Quando finalmente foi transferido para um leito, teve de dividir um mesmo ambiente com outras 9 crianças e seus acompanhantes, com os mais variados diagnósticos. Com a imunidade baixa e exposto à tantos riscos, foi acometido de uma infecção hospitalar.

No dia 17/11, após denúncia do jornal de maior circulação no Estado, os médicos finalmente reconheceram a gravidade de seu estado clínico e o transferiram para a UTI, de onde só saiu na última sexta, quando veio a óbito. Nem mesmo o direito da mãe em permanecer ao lado do filho menor e especial (artigo 12 do Estatuto da Criança e do Adolescente) foi preservado! A mãe teve sua permanência ao lado do filho reduzida a míseros 10 minutos diários. Os médicos e enfermeiros não lhe diziam nada além do que "o estado dele é grave" ou "nada mais pode ser feito". Imaginem a aflição dessa mãe, vendo a vida do filho sendo ceifada e não sabendo o que fazer, a quem recorrer...

Quem conhece o Socorrão II, sabe bem do que estou falando. Os corredores são abarrotados de pacientes. Deitados em macas, sobre bancos, cadeiras e até mesmo no chão! Triste sina de quem não tem outra opção. Infelizmente, não podemos afirmar que tenha sido somente falha médica, quando a falta de recursos e de estrutura salta aos olhos.

Segue a reportagem do "O ESTADO DO MA", de sábado, que noticiou seu falecimento:

Morre menino que contraiu pneumonia no Socorrão II

Gustavo Augusto ficou internado por 48 dias no hospital por causa de uma crise convulsiva.

Por Diego Torres/ O Estado

SÃO LUÍS - Morreu ontem (10), no Hospital Clementino Moura (Socorrão II), Gustavo Augusto Silva Costa (7 anos). Ele contraiu pneumonia naquela unidade de saúde, permaneceu internado durante 48 dias e teve seu quadro clínico agravado após uma infecção generalizada. O diretor do hospital, Ademar Bandeira, atribuiu a causa da morte da criança à pneumonia e ao choque séptico.

De acordo com Claudete Pletsch, amiga que acompanhou a luta da mãe, Maria Verônica Cruz da Silva (27 anos), a criança estava internada desde o dia 23 de outubro no Socorrão II, em virtude de uma crise convulsiva. Desde o primeiro dia em que Gustavo foi internado no hospital, seu quadro clínico piorou. Menos de uma semana depois da internação, um exame identificou que ele contraiu pneumonia e uma grave infecção hospitalar, mas mesmo assim permanecia "no colo da mãe em um banco de concreto, junto com nove crianças, com seus acompanhantes", afirmou Claudete Pletsch.

A revolta da família e dos amigos com o hospital é ainda maior, porque foi o agravamento da infecção que impossibilitou a transferência para o Hospital Dr. Juvêncio Mattos. "Nós já havíamos conseguido tudo. Já tínhamos um leito aguardando a chegada de Gustavo, mas em razão da infecção, em estado muito avançado, os diretores do hospital informaram que ao primeiro sinal de melhora ele seria transferido para que não comprometesse a saúde dos demais pacientes do (hospital) Juvêncio Mattos", explicou a amiga.

No dia 17 de novembro, a situação da criança e de sua família foi mostrada em O Estado. Ele permanecia sob os mínimos cuidados da equipe de médicos e enfermeiros do Socorrão II. "Eu tive de dar uma de doida para meu filho poder ficar num leito um pouco melhor", informou Maria Verônica à época. Na mesma reportagem, a mãe afirmou que seu filho entrou no Socorrão II com um problema e sairia com outros piores.

Segundo o diretor-geral do Socorrão II, o médico Ademar Bandeira, o prontuário médico de Gustavo indicava paralisia cerebral, epilepsia e a suspeita de pneumonia, informação contestada pela mãe. "O único problema que meu filho apresentava era a crise convulsiva, nada mais que isso", rebateu Maria Verônica.

NOTA: Choque séptico é o termo médico usado para designar a falência circulatória aguda de causa infecciosa. Caracterizada de hipotensão arterial grave e refratária provocada através de germes como bactérias, fungos e vírus, levando a septicemia e comprometimento do sistema circulatório através da dilatação venocapilar. Causas mais comuns: Contaminação de cateteres, sondas vesicais e pneumonias. Existe importante relação entre sepse e infecção hospitalar, germe multirresistente e quadros de deficiência imune.







Editorial  do Blog do Arcanjo SLZ - Claudete Pletsch



Triste. Não há outra definição para o sentimento que me assola. 

Gustavo Augusto Silva Costa, 7 anos, portador de paralisia cerebral, internou no Socorrão II em outubro apresentando quadro de convulsões, que os médicos não estavam conseguindo controlar. Por mais de uma semana, permaneceu internado sem leito, deitado sobre um banco de concreto no corredor, contando apenas com o conforto do colo da mãe. Quando finalmente foi transferido para um leito, depois de muita briga da mãe, teve de dividir um mesmo ambiente com mais 9 crianças e seus acompanhantes, com os mais variados diagnósticos. Lutamos em vão pela sua transferência para um hospital que lhe desse melhores condições de tratamento.

Com sintomas de pneumonia desde a segunda semana de novembro, estava sendo medicado apenas para febre e as crises convulsivas. Os médicos diziam se tratar “de uma simples gripe”. Somente com a denúncia de "O ESTADO DO MA", no dia 17/11, quando teve seu caso estampado na capa do jornal de maior circulação no Estado, é que os médicos reconheceram a gravidade do seu quadro clínico e Gustavo foi transferido para a UTI. Por se tratar de uma infecção hospitalar, inviabilizou definitivamente sua transferência, devido a normas de saúde. Estava então, jogado à própria sorte. Nem mesmo o direito da mãe, de permanecer ao lado do filho menor, foi garantido, ferindo o artigo 12 do Estatuto da Criança e do Adolescente.
 
A mãe, Verônica, foi limitada a visitar o filho somente uma vez por dia, por alguns minutos. Vagava então pelo hospital, por entre corredores abarrotados de pacientes, à procura de médicos, enfermeiros, assistentes sociais... qualquer pessoa que fosse capaz de lhe dizer alguma palavra que confortasse o seu coração aflito... alguma frase que não fosse mecânica ou automática. Há vários dias tudo o que ouvia era que "o estado de Gustavo era grave" e que "não havia mais nada que se pudesse fazer".
 
Impotência ou incompetência?

Uma semana após a morte de outra criança de 12 anos, em São Paulo, por ter recebido vaselina ao invés de soro fisiológico, a vítima dessa vez foi Gustavo. Falhas grotescas que não podem ser admitidas quando o que está em jogo são vidas. Não queremos acreditar que a falha tenho sido somente médica, uma vez que a falta de recursos e de estrutura salta aos olhos. Resta se perguntar quantas vidas mais serão ceifadas para que os usuários do sistema público de saúde possam receber o tratamento digno a qualquer cidadão. Gustavo agora faz parte das estatísticas. Ele é apenas um número. Mais um.

Desde que iniciamos nossa campanha para ajudar Gustavo, várias foram as pessoas que chegaram a mim relatando casos de óbito na família ou de amigos, também relacionados ao Socorrão II. Casos que não teriam o mesmo triste fim se tivessem recebido o tratamento necessário, no tempo certo. Então não dá mais prá negar o óbvio: precisamos de um sistema de saúde que suporte a demanda. Um tratamento mais humanitário para pessoas que não podem ser tratadas apenas como números, mas sim como únicas que são.
 
Como se não bastasse tamanho infortúnio, Verônica perdeu também o pai, no dia 19/11 e a família foi despejada do terreno em que moravam numa modesta casinha de taipa, num local de difícil acesso nos arredores do Parque Vitória, denominado “carvoaria” pelos moradores da região. Desde então, contam apenas com a ajuda de amigos e familiares.
 
Esse é o retrato dessa família que perdeu, enfim, o seu bem mais precioso: GUSTAVO.
 
Um menino que teve uma vida gloriosa, que passou por esse mundo sem causar qualquer mágoa, qualquer sofrimento... assim foi a vida de Gustavo, um anjo que viveu entre nós.

Assim como sua vida foi gloriosa, que sua morte não tenha sido em vão!